Estamos vendo a mesma coisa? O que Klimt e Magritte podem nos ensinar sobre percepção, conexão e diferentes formas de olhar.
Por Paula Barbieri, fundadora e curadora da Estarte
Em uma experiência da Estarte, trouxemos uma pequena amostra do Estarte Repertórios e colocamos lado a lado duas obras: O Beijo, de Gustav Klimt, e Os Amantes, de René Magritte.
As duas podem nos fazer pensar sobre amor, intimidade e conexão, mas fazem isso de maneiras completamente diferentes.
Na obra de Klimt, vemos um casal abraçado, envolvido por formas ornamentais e tons dourados. Os corpos parecem unidos em um espaço de entrega, proximidade e delicadeza.
Em Os Amantes, duas pessoas também se beijam, mas há um tecido cobrindo seus rostos. A imagem pode provocar sensações de distância, mistério, impedimento ou até mesmo da impossibilidade de conhecer verdadeiramente o outro.
Duas grandes obras. Dois artistas olhando para temas semelhantes e escolhendo caminhos completamente diferentes para representá-los.
E talvez esteja aí uma das coisas mais bonitas que a arte nos ensina: não existe uma única maneira de olhar para um tema, uma situação ou uma experiência.
O que escolhemos enxergar?
Cada artista decide o que destacar, o que esconder, como representar e qual reflexão provocar. Da mesma forma, cada pessoa observa uma obra a partir de suas próprias referências, experiências e emoções.
Não é apenas sobre conhecer Klimt ou Magritte — embora ampliar esse repertório também seja muito interessante. É sobre parar, observar e perceber que aquilo que parece tão claro para nós pode ser compreendido de uma maneira completamente diferente pelo outro.
E fazemos pouco esse exercício no cotidiano.
Muitas vezes, partimos da nossa própria percepção como se ela fosse a realidade. Interpretamos situações, relações e comportamentos a partir do nosso ponto de vista, sem considerar que a outra pessoa pode estar vendo, sentindo e compreendendo algo completamente diferente.
Então, vale perguntar:
Será que estamos vendo a mesma coisa?
A arte como ferramenta de desenvolvimento humano
A arte nos convida a desacelerar o olhar. Ela não oferece apenas respostas: também cria perguntas, desloca certezas e apresenta novas perspectivas.
Por isso, acredito cada vez mais no repertório e na arte como ferramentas para desenvolver habilidades profundamente humanas:
escuta;
empatia;
criatividade;
pensamento crítico;
capacidade de fazer conexões;
abertura para diferentes pontos de vista.
Em um mundo repleto de informações e respostas rápidas, talvez precisemos justamente de mais espaços para observar, interpretar, conversar e compreender.
É esse tipo de reflexão que buscamos provocar quando levamos a arte para uma experiência da Estarte — seja em nossa comunidade, em uma visita a um museu ou dentro de uma empresa.
Porque ampliar o repertório também amplia nossa forma de olhar para o outro e para o mundo.
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